Por que o cérebro precisa das lágrimas?
agosto de 2014
Suzana Herculano-Houzel
| Gonçalo Viana |
Assim que a Copa do Mundo chegou à fase de mata-mata, todo jogo acabava em um mar de lágrimas.
Mas nem todos os chorosos eram perdedores amargando a tristeza da
eliminação: lágrimas de felicidade também foram comuns nos vencedores,
como no final do nosso jogo sofrido contra o Chile, quando Júlio César
nos salvou. Até lá em casa, bem longe do campo, as lágrimas rolaram
pelas bochechas de quem estava no sofá, mero espectador do esforço
alheio.
Lágrimas de tristeza e de felicidade parecem ser coisas opostas, mas eu diria que elas têm origem comum: a resolução de um problema que deixava o cérebro apreensivo, tenso, aguardando o resultado de um jeito ou de outro.
Enquanto tanto já se conhece sobre outros comportamentos, curiosamente pouco se sabe sobre os mecanismos cerebrais do choro, talvez porque ele seja tão facilmente acompanhado de soluços. O problema é que a ressonância magnética funcional, o método mais usado para visualizar dentro do cérebro as estruturas cuja ativação está relacionada com os mais variados comportamentos, exige perfeita imobilidade do voluntário cujo cérebro é estudado. Um pouco de emoção funciona – algo que dê certa tristeza ou coloque um sorriso no rosto, por exemplo. Mas os estímulos usados não podem levar os voluntários a gargalhadas ou a soluços. Portanto, nada de cócegas ou lágrimas.
O que se sabe vem por outros meios. Lágrimas são produzidas pelas glândulas lacrimais em resposta à estimulação parassimpática, sob controle do hipotálamo. O sistema nervoso parassimpático é aquele que faz o contrário do simpático, este responsável por colocar o corpo em um estado de alta disponibilidade energética, pronto para a ação: o parassimpático relaxa o corpo, reduzindo a frequência cardíaca e a pressão arterial.
Quando o nervo trigêmeo traz sinais de que os olhos estão secos ou sob algum tipo de agressão, o hipotálamo responde fazendo nervos parassimpáticos aumentarem ligeiramente a produção de lágrimas. Mas em alguns casos, a ativação parassimpática é mais intensa e generalizada, levando à produção de tantas lágrimas que elas transbordam e rolam rosto abaixo e nariz adentro. E mais: com a ativação parassimpática, o corpo todo começa a se acalmar. Não é que chorar necessariamente acalme; mais provavelmente, é aquilo que causa o choro que também acalma o corpo.
E o que causa o choro? A pouca evidência implica alguma parte do córtex pré-frontal, o que casa com a minha inferência a partir de dados comportamentais: o choro vem com a resolução, não importa se feliz ou infeliz, de estados de alta tensão (e forte ativação simpática, que prepara o corpo para agir se preciso). Esses são estados de intenso esforço de controle cognitivo, seja para se manter focado em uma ação necessária (como bater o pênalti), suprimir ações negativas (como xingar o juiz ou atacar o adversário) ou simplesmente manter a concentração sobre o objetivo da vez, do qual seu futuro próximo (e o de uma nação inteira!) depende.
E, quando a situação subitamente se resolve e todo aquele esforço mental deixa de ser necessário, um surto de ativação parassimpática desfaz todo o circo simpático armado no corpo – e, de tão intenso, acaba trazendo as lágrimas. Ah, o alívio. O resultado pode até ter sido ruim, mas agora o cérebro não precisa mais se segurar.
Por isso chorar pode fazer um bem danado: não pelas lágrimas em si, mas porque se elas rolam, o cérebro parou de fazer força para se segurar e pode, finalmente, se soltar.
Lágrimas de tristeza e de felicidade parecem ser coisas opostas, mas eu diria que elas têm origem comum: a resolução de um problema que deixava o cérebro apreensivo, tenso, aguardando o resultado de um jeito ou de outro.
Enquanto tanto já se conhece sobre outros comportamentos, curiosamente pouco se sabe sobre os mecanismos cerebrais do choro, talvez porque ele seja tão facilmente acompanhado de soluços. O problema é que a ressonância magnética funcional, o método mais usado para visualizar dentro do cérebro as estruturas cuja ativação está relacionada com os mais variados comportamentos, exige perfeita imobilidade do voluntário cujo cérebro é estudado. Um pouco de emoção funciona – algo que dê certa tristeza ou coloque um sorriso no rosto, por exemplo. Mas os estímulos usados não podem levar os voluntários a gargalhadas ou a soluços. Portanto, nada de cócegas ou lágrimas.
O que se sabe vem por outros meios. Lágrimas são produzidas pelas glândulas lacrimais em resposta à estimulação parassimpática, sob controle do hipotálamo. O sistema nervoso parassimpático é aquele que faz o contrário do simpático, este responsável por colocar o corpo em um estado de alta disponibilidade energética, pronto para a ação: o parassimpático relaxa o corpo, reduzindo a frequência cardíaca e a pressão arterial.
Quando o nervo trigêmeo traz sinais de que os olhos estão secos ou sob algum tipo de agressão, o hipotálamo responde fazendo nervos parassimpáticos aumentarem ligeiramente a produção de lágrimas. Mas em alguns casos, a ativação parassimpática é mais intensa e generalizada, levando à produção de tantas lágrimas que elas transbordam e rolam rosto abaixo e nariz adentro. E mais: com a ativação parassimpática, o corpo todo começa a se acalmar. Não é que chorar necessariamente acalme; mais provavelmente, é aquilo que causa o choro que também acalma o corpo.
E o que causa o choro? A pouca evidência implica alguma parte do córtex pré-frontal, o que casa com a minha inferência a partir de dados comportamentais: o choro vem com a resolução, não importa se feliz ou infeliz, de estados de alta tensão (e forte ativação simpática, que prepara o corpo para agir se preciso). Esses são estados de intenso esforço de controle cognitivo, seja para se manter focado em uma ação necessária (como bater o pênalti), suprimir ações negativas (como xingar o juiz ou atacar o adversário) ou simplesmente manter a concentração sobre o objetivo da vez, do qual seu futuro próximo (e o de uma nação inteira!) depende.
E, quando a situação subitamente se resolve e todo aquele esforço mental deixa de ser necessário, um surto de ativação parassimpática desfaz todo o circo simpático armado no corpo – e, de tão intenso, acaba trazendo as lágrimas. Ah, o alívio. O resultado pode até ter sido ruim, mas agora o cérebro não precisa mais se segurar.
Por isso chorar pode fazer um bem danado: não pelas lágrimas em si, mas porque se elas rolam, o cérebro parou de fazer força para se segurar e pode, finalmente, se soltar.
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