A neurogênese, o que é?
Até o século passado, tínhamos convicção de que a neurogênese ― ou
seja, o processo de geração de neurônios ― estava restrita ao tempo em
que os animais permaneciam no útero de suas progenitoras. Um bom indício
que comprova essa teoria é a capacidade limitada que seres humanos
possuem de se recuperar de derrames ou danos neurológicos causados por
acidentes.
Porém, com o passar do tempo, novas pesquisas encontraram indícios de
que o cérebro de outros animais adultos podia se regenerar. Esse é o
caso, por exemplo, dos canários. Um estudo publicado em 1980 por
Fernando Nottebohm, da Universidade Rockefeller, em Nova York, demonstra
que, durante o outono, esses pássaros regeneram as células cerebrais
que perdem durante o inverno.
Na ocasião, a descoberta causou certo furor na comunidade científica,
já que, de acordo com o artigo “Fantasy Fix”, publicado na revista New
Scientist de 18 de fevereiro de 2012, isso pode renovar as esperanças de
quem precisa de um tratamento mais eficaz para doenças como o Mal de
Parkinson. Apesar de alguns neurocientistas afirmarem que isso não
acontece com humanos adultos, outros se sentiram inspirados o suficiente
para buscar por um processo semelhante em nossa espécie.
Regeneração cerebral em mamíferos
(Fonte da imagem: ThinkStock)
Em 1992, os pesquisadores Samuel Weiss e Brent Reynolds, da
Universidade de Calgary, em Alberta, Canadá, isolaram células do cérebro
de camundongos que possuíam características semelhantes às de
células-troncos. Manipuladas em laboratórios, essas células deram origem
a novos neurônios e também a outros tipos de células do cérebro.
Na natureza, essas “células-mães” funcionam de maneira similar. Fred
Gage, do Instituto Salk, na Califórnia, descobriu que a mesma substância
adicionada a elas em laboratório está também presente no DNA desses
mamíferos. Além disso, a equipe de Gage detectou a presença de proteínas
produzidas apenas por neurônios “recém-nascidos”.
Graças a esse tipo de pesquisa, foi constatado que, em ratos adultos,
a neurogênese acontece em cavidades cerebrais preenchidas com líquido
cerebroespinhal. Curiosamente, o sistema nervoso começa a se desenvolver
de maneira semelhante, na forma de um tubo vazio que se estende pelas
“costas” do embrião. É a partir dele que os neurônios recém-formados
criam, posteriormente, o cérebro e a medula espinhal.
E não são apenas ratos que apresentam evidências neurogêneses. No fim
dos anos 90, foi descoberto que macacos adultos também geram novas
células no hipocampo, região do cérebro considerada como a “sede da
memória”. Obviamente, macacos são muito mais parecidos com humanos do
que os ratos e, portanto, na época, essa notícia foi constatada com
muito otimismo.
E quanto aos humanos?
A grande notícia veio quando a equipe de Gage pôde analisar os
cérebros de cinco pessoas que tiveram câncer. Enquanto esses pacientes
estavam vivos, os pesquisadores tiveram que injetar bromodeoxiuridina
(BrdU), uma substância usada para detectar a proliferação de células em
tecidos vivos, sendo muito útil para realçar tumores e permitir que os
médicos visualizem melhor o estágio da doença. O interessante é que,
após a morte desses pacientes, a BrdU foi detectada no hipocampo de
todos os pacientes, sugerindo, portanto, que havia geração de novas
células naquela região.
A descoberta se alastrou pelo mundo todo com muito otimismo, já que, a
princípio, parece que o cérebro é muito mais adaptável a situações
adversas do que a comunidade científica acreditava. Infelizmente, uma
experiência como essa ainda não foi repetida. Porém, outras atestam o
mesmo resultado.
O Gerd Kempermann, do Centro de Terapias Regenerativas de Dresden, na
Alemanha, realizou uma pesquisa com 15 anticorpos diferentes, usados
para detectar determinadas proteínas produzidas por neurônios
recém-criados. Foram analisados os cérebros de 54 pessoas que morreram
quando estavam perto de completar 100 anos de idade.
Surpreendentemente, o resultado foi similar ao obtido anteriormente
com cobaias de laboratório: a presença de indicativos evidenciando que
novas células estavam sendo geradas no hipocampo. Em entrevista para a
revista New Scientist de 18 de fevereiro de 2012, o Dr. Kempermann
afirmou que apesar de a geração de células diminuir na medida em que a
pessoa envelhece, é possível perceber essa atividade mesmo em seres
humanos de idade avançada.
Além disso, também foi possível detectar a presença de células-tronco
no cérebro do Homo sapiens. Essa descoberta só foi possível graças a
pacientes que recorreram a uma cirurgia para tratar crises epilépticas. O
tratamento consiste, basicamente, na remoção de partes do cérebro onde
se originam essas convulsões, que normalmente se dão ao redor do
hipocampo.
Assim, foi possível isolar o que pareciam ser células-tronco
localizadas nessas amostras removidas. Apesar de essas células terem
capacidade limitada de crescimento em laboratório, elas possuem a
capacidade de gerar novos neurônios. Para os neurocientistas, isso é uma
ótima notícia, já que esse “reservatório” de células poderia ser
explorado para tratar derrames e doenças como as de Parkinson e de
Alzheimer.
Neurogênese e ceticismo científico
Como já era de se esperar, alguns cientistas se opõem à ideia de que a
neurogênese seja possível em seres humanos adultos. Em um artigo
publicado na revista Nature (vol. 478; pág. 333), o famoso
neurocientista Pasko Rakic afirma que os dados encontrados em
experimentos com camundongos não podem ser aplicados aos humanos.
Como se não bastasse, Rakic afirma que o uso de BrdU em experimentos
como esses não é confiável, já que a substância pode induzir a divisão
celular. Por isso, muitos testes agora são feitos com anticorpos que
identificam proteínas geradas por neurônios novos, mas ainda não há um
consenso quanto a quais proteínas podem identificar, com confiabilidade,
a presença de neurônios recém-criados. Além disso, os experimentos que
constataram a presença de neurogênese em macacos foram feitos apenas com
BrdU.
Grosso modo, os cientistas que ainda veem a neurogênese com dúvida
resumem a situação dizendo que não existem evidências de que tal
fenômeno aconteça no córtex cerebral, que há evidências contraditórias
para o caso do nascimento de novos neurônios no bulbo olfatório ― região
do cérebro responsável pelos cheiros que sentimos ― e que as provas são
limitadas no caso do hipocampo, cuja neurogênese parece diminuir à
medida que a idade aumenta e não se sabe, ao certo, se a quantidade
disponível poderia ser útil de alguma forma.
Pode ser que seja verdade a velha ideia de que o cérebro humano
adulto não pode se regenerar. De acordo com Rakic e outros cientistas, é
muito provável que, com uma idade avançada, nosso cérebro seja mais
estável do que adaptável. Porém, mesmo assim haveria esperança para os
pacientes com doenças ou lesões neurais: transplantar neurônios gerados
em laboratório para o cérebro do paciente.
Infelizmente, a humanidade ainda tem um longo caminho para percorrer
até que essas técnicas cheguem aos hospitais e clínicas do mundo todo.
Mas é importante saber que já estamos dando os primeiros passos para que
isso se torne realidade.
Em 31/01/2014 foi publicado que diversas pesquisas na área da
neurociência são realizadas por cientistas do mundo inteiro a fim de
desvendar o funcionamento e desenvolvimento do cérebro humano.
Recentemente a substância D-serina,
secretada por células no sistema nervoso, foi identificada pelos
cientistas por sua capacidade de intensificar o processo de criação de
novos neurônios, denominado neurogênese.
Tal substância foi aplicada no hipocampo
de camundongos, região relacionada diretamente ao aprendizado e à
formação da memória. Eles concluíram que a D-serina pode favorecer os
processos ligados ao aprendizado.
Diferentemente do que se pensava antes, o
cérebro tem grande capacidade de criar novos neurônios. Mas isso não
acontece constantemente, é necessário estimular o cérebro sempre.
A ginástica cerebral, ou estimulação
cognitiva, é uma atividade que ativa regiões do cérebro que ficam
adormecidas quando permanecemos na rotina.
Comparada à atividade física, a
ginástica cerebral potencializa as habilidades cognitivas, tais como
atenção, coordenação motora, raciocínio lógico e memória.
A neurociência também já comprovou a neuroplasticidade, a capacidade do cérebro de criar novas redes de conexões neuronais.
Portanto, comece a se engajar em
atividades que estimulam a produção de neurônios e melhoram o
funcionamento do cérebro, como a ginástica cerebral, exercícios físicos e
alimentação saudável.
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