O mundo dos canhotos

HEMISFÉRIOS
MARILENE DE PINHO S. MAZZA
Texto baseado no artigo “Mapping Brain Asymmetry” de Arthur W. Toga e Paul M. Thompson
Nature Reviews Neuroscience 4 (1): 37-48 (2003)

Para a maioria das pessoas, a humanidade está dividida em dois grupos: o dos destros e o dos canhotos. Esta divisão já foi motivo de muito preconceito e muita opressão, pois muita gente acreditava que ser canhoto era algo de natureza maligna. Hoje em dia, ela ainda causa muitos problemas para os canhotos, que vivem em um mundo onde a maioria dos objetos é construída para destros. Atualmente, porém, o fato de ser canhoto deixou de ser considerado uma manifestação de forças do mal e é atribuído a diferenças naturais entre as duas metades do cérebro, os hemisférios cerebrais.

A maioria das pessoas acredita que os destros são governados pelos hemisfério cerebral esquerdo e os canhotos pelo hemisfério cerebral direito. A verdade, contudo, não é tão simples assim. Os cientistas californianos Arthur Toga e Paul Thompson publicaram, em janeiro deste ano, na revista Nature Review Neuroscience, o artigo intitulado “Mapping brain asymmetry” (Mapeando a Assimetria Cerebral) que revisa a vasta literatura sobre as diferenças anatômicas e funcionais entre os dois hemisférios cerebrais conhecidas até o momento.

Nos parágrafos que se seguem, procuramos resumir algumas das importantes informações trazidas pelo artigo de Toga e Thompson. Os hemisférios cerebrais têm pesos e volumes semelhantes. Contudo, o direito difere marcadamente do esquerdo no que se refere à distribuição de tecidos e à especialização funcional.

A especialização do hemisfério esquerdo para a linguagem foi relatada no século XIX por Broca e Wernicke, os quais observaram que a linguagem se encontrava mais severamente comprometida na presença de tumores ou acidentes vasculares cerebrais (derrames) do hemisfério esquerdo. Na maioria das pessoas, a área de Broca, a qual é responsável pela produção da linguagem e por certos aspectos do processamento sintático, se encontra na parte anterior do hemisfério cerebral esquerdo. Também na maioria das pessoas, a área de Wernicke, que é responsável pela compreensão da linguagem, envolve a parte posterior do lobo temporal e parte do lobo parietal esquerdo.

Os autores descrevem diversos métodos que são empregados atualmente no estudo da especialização hemisférica cerebral. O mapeamento cirúrgico, o primeiro método utilizado para este fim, foi introduzido por Penfield e colaboradores em 1954. Este método é utilizado ainda hoje para identificar áreas fundamentais de linguagem e evitar sua ressecção em pacientes cirúrgicos. A ressonância nuclear magnética revela assimetrias anatômicas macroscópicas. O teste de Wada consiste na injeção intracarotídea de amital sódico, que produz anestesia transitória no hemisfério ipsilateral e bloqueio da fala se o hemisfério afetado for o dominante. Os estudos de pacientes com o cérebro dividido (por ressecção do corpo caloso para o controle de epilepsia resistente a tratamento farmacológico) permitem a apresentação de estímulos de modo seletivo a cada um dos hemisférios cerebrais por vez. Na escuta dicótica, sons diferentes são apresentados simultaneamente aos ouvidos direito e esquerdo e o sujeito é posteriormente avaliado para se determinar qual dos estímulos auditivos foi analisado com maior acuidade. Imagens cerebrais funcionais são obtidas por meio da tomografia por emissão de pósitros e da ressonância nuclear magnética funcional. Essas imagens permitem a identificação das áreas de linguagem e de outras áreas cerebrais por meio de medidas do fluxo sangüíneo e do consumo de glicose e de oxigênio pelas células do cérebro.

No estudo dos hemisférios cerebrais, dois termos são amplamente usados: o termo lateralização cerebral, usado para designar a especialização dos hemisférios esquerdo e direito do cérebro em termos de funções cognitivas; e o termo dominância, empregado, principalmente com relação à linguagem e à preferência manual para designar o fato de que um dos hemisférios é considerado o “dirigente” de determinada função.
A dominância lingüística e a manual não são perfeitamente correlacionadas: 97% dos destros apresentam dominância lingüística no hemisfério cerebral esquerdo, e 3% apresentam dominância lingüística no hemisfério cerebral direito ou representação bilateral da linguagem. Dentre os canhotos, 70% apresentam dominância lingüística no hemisfério cerebral esquerdo, e 30% apresentam dominância lingüística no hemisfério cerebral direito ou representação bilateral da linguagem.

Mesmo em pessoas altamente lateralizadas, certos aspectos do processamento lingüístico, como os emocionais, os prosódicos e os melódicos, são processados pelo hemisfério não dominante. Além disso, ao invés de processar o significado literal das palavras, o hemisfério não-dominante parece interpretar os significados figurativos da linguagem, representados através do humor e das metáforas, bem como as hesitações e o tom de voz.

Diversas diferenças têm sido demonstradas entre os hemisférios cerebrais. Nos indivíduos que apresentam dominância cerebral esquerda para a linguagem, o material verbal é mais prontamente analisado se apresentado ao ouvido direito, enquanto o material musical é mais eficazmente analisado se apresentado ao ouvido esquerdo.
O termo petalia designa as impressões deixadas na superfície interna do crânio pelas protrusões de um hemisfério cerebral em relação ao outro; nos humanos o lobo frontal direito é freqüentemente maior do que o esquerdo, e o lobo occipital esquerdo é freqüentemente maior do que o direito. Esse tipo de assimetria é mais comum em destros.

O planum temporale é uma estrutura de processamento auditivo localizada na parte posterior do lobo temporal superior e relacionada com a preferência manual, a codificação fonológica, a percepção da fala e a lateralidade lingüística. Os destros apresentam uma maior assimetria do planum temporale que favorece o lado esquerdo. Nos humanos, o planum temporale esquerdo é até dez vezes maior do que o esquerdo - esta é talvez a assimetria cerebral mais proeminente e mais significativa do ponto de vista funcional. Os homens apresentam uma maior assimetria a favor do lado esquerdo no planum temporale em comparação com as mulheres. Este achado é consistente com a idéia de que a estrutura cerebral é mais lateralizada nos homens do que nas mulheres. A assimetria do planum temporale também está presente em primatas não humanos, inclusive chipanzés.

Em macacos esquilos foi demonstrado que o tamanho das áreas somatotópicas corticais que representam a parte distal do membro anterior depende da preferência manual - o tamanho dessas áreas é maior no hemisfério oposto ao membro dominante.
Diversos fatores afetam a lateralização cerebral, dentre eles: genética, eventos do desenvolvimento, assimetrias neuroquímicas, experiências e doenças. A lateralização cerebral não pode ser influenciada exclusivamente pelo genótipo do indivíduo, pois muitos gêmeos monozigóticos têm lateralização motora discordante. Fatores pré e pós-natais não genéticos, como efeitos hormonais, gradientes químicos e influências ambientais e danos cerebrais assimétricos durante a gravidez estão envolvidos na especialização dos hemisférios cerebrais. A postura fetal e outras influências assimétricas durante o período pré-natal podem resultar em assimetrias perceptivas e motoras. Dois terços dos fetos no terceiro trimestre da gravidez estão posicionados de modo que seu lado direito está voltado para fora; a lateralização da percepção da linguagem pode resultar da assimetria de suas experiências auditivas. Estimulação sensorial lateralizada durante o desenvolvimento pré e pós-natal pode determinar assimetrias cerebrais. A exposição do feto ao ultra-som aumenta em cerca de 30% a chance de que ele venha a ser um canhoto. Há evidências de que, em roedores, os níveis de esteróides sexuais androgênicos e ovarianos têm um papel na modulação da assimetria cerebral.

Em humanos, os fetos do sexo masculino têm um hemisfério cerebral direito maior do que o hemisfério cerebral esquerdo. Além disso, há evidências de que o cérebro masculino pode ser (na média) mais lateralizado ou assimétrico do que o feminino. Essas e outras diferenças na organização cerebral podem estar subjacentes a diferenças entre os gêneros, como a maturação mais precoce das mulheres, o melhor desempenho das mulheres em tarefas lingüísticas, o melhor desempenho dos homens em tarefas visuo-espaciais, e a maior incidência de canhotos entre os homens.

Em ratos, a plasticidade dependente de experiências e comportamentos assimétricos pode também induzir diferentes alterações neuronais em ambos os hemisférios cerebrais. Assimetrias aberrantes têm sido associadas a condições patológicas. Alterações na simetria de áreas de processamento da linguagem foram encontradas em pacientes disléxicos e gagos. Além disso, patologias podem interagir com assimetrias cerebrais já existentes ou exacerbá-las. Uma maior assimetria funcional cerebral nos homens parece estar subjacente à maior incidência de comprometimento da linguagem após acidente vascular cerebral em homens do que em mulheres, e possivelmente à maior incidência de problemas de aprendizagem nos meninos do que nas meninas.

As assimetrias estruturais e funcionais do cérebro começam a ser observadas por volta da vigésima nona à trigésima primeira semanas de gestação. Elas são construídas a partir de diferentes programas de desenvolvimento baseados em taxa de maturação, arborização dendrítica e ativação funcional. Os padrões das assimetrias variam com a idade, o gênero, as experiências e uma gama de fatores genéticos e influências hormonais.

Para Toga e Thompson, muito estudo e novas pesquisas ainda são necessários para que se possam desvendar os mecanismos subjacentes à geração das assimetrias hemisféricas cerebrais tanto em indivíduos normais quanto em portadores de doenças do cérebro.

Os estudos com neuroimagem permitem hoje a observação de padrões de assimetria estrutural e funcional, e ajudam na identificação ou confirmação de fatores que podem modular padrões de assimetria cerebral. Os autores acreditam que a associação desses tipos de estudos com pesquisas genéticas podem resultar na descoberta de fatores genéticos, demográficos e de desenvolvimento envolvidos na determinação da assimetria cerebral.

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