O crânio humano envolve o órgão mais precioso do corpo

novembro de 2014
Suzana Herculano-Houzel
 
Voodoodot /Shutterstock

O crânio humano envolve o órgão mais precioso do corpo, ainda impossível de consertar ou trocar por outro, e sem o qual o resto não faz sentido: seu cérebro. Os ossos do crânio são construídos como um capacete, distribuindo lateralmente eventuais pancadas, o que diminui a chance de choques pontuais à cabeça causarem lesões concentradas naquele ponto – exceto quando fortes o suficiente a ponto de perfurar o crânio, claro. Por isso aquele senhor galo roxo na cabeça de crianças travessas é quase um bom sinal: indica que a parte externa do crânio acolchoou o impacto, fazendo sua parte de proteger o cérebro.
Infelizmente, o não derramamento de sangue após impactos à cabeça não indica que o cérebro sobreviveu ileso. “Traumas de cabeça fechada”, também conhecidos como concussões, são lesões do cérebro causadas por aceleração súbita do cérebro dentro da caixa craniana, e podem acontecer sem deixar qualquer traço visível em exames iniciais de imagem cerebral. Concussões são típicas em acidentes de carro, sobretudo quando não se usa o cinto de segurança – e também em esportes onde se usa a cabeça para atacar a bola ou o adversário, como o futebol americano ou o nosso mesmo.
A razão do estrago invisível é a quebra de fibras na substância branca que interconectam as várias partes do cérebro. O resultado é equivalente a uma rede de computadores que ainda funcionam mas não mais trocam informações uns com os outros.
Embora as fibras da substância branca sejam bastante elásticas, elas se partem quando estiradas muito rapidamente – por exemplo, quando o cérebro recebe uma pancada de lado. Enquanto uma metade do cérebro é mantida no lugar pela meninge que separa os dois hemisférios do cérebro, a outra é projetada para o lado, distendendo a substância branca profunda. Quanto maior é a aceleração, maior é o dano, conforme mais fibras se partem. O tipo de dano cognitivo, que pode chegar à perda de consciência e ao coma, depende do local lesionado – o que, por sua vez, depende do eixo da pancada ou aceleração.
Lesões desse tipo acontecem em acidentes de carro mesmo sem pancadas na cabeça, apenas com a desaceleração súbita. E também em atividades desportivas aparentemente inócuas, como cabecear a bola de vôlei ou futebol. De acordo com dois estudos recentes, a chance de concussão é ao menos tão grande em jogos de futebol quanto no truculento futebol americano, deixando jogadores com problemas de memória.
Ao longo do tempo, as pequenas interrupções nas fibras da substância branca se tornam visíveis em imagens do cérebro – inclusive em amadores: quanto mais cabeceiam a bola, mais esses jogadores sofrem danos em seu cérebro – que se correlacionam com pequenos, mas visíveis, problemas de memória.

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